
kurumins, o futuro da rocinha

três crianças de costas olham a favela, em preto e branco

soltar pipa na laje

gustavinho e o lazer de ser cria da rua

gaviões do morro – os meninos do laboriô

originais são originários – abeguar

viver é um luxo · os crias da tl, 2025 — foto da exposição
viver é um luxoos crias da tl
No alto da Rocinha, as crianças da T.L. e a fotógrafa Fotogracria compõem um retrato coletivo do seu morro — e colam esse retrato nos seus muros.
a t.l., terra da lama
No alto da Rocinha, na região da Macega, localiza-se uma quadra conhecida como T.L. — sigla para Terra da Lama. Esse espaço, marcado por intensas vivências comunitárias, é também um polo de criatividade e potência juvenil. É nesse contexto que surge a exposição “os crias da T.L.”, resultado do projeto Pontos de Vista, uma iniciativa conjunta da mOst com a fotógrafa e diretora criativa Fotogracria.
A escolha por realizar as oficinas e inaugurar a exposição, primeiro, na própria Macega é também uma afirmação política e poética. Mais do que levar a comunidade ao museu, buscamos evidenciar que a favela é, por si só, um museu vivo — um centro cultural pulsante, onde a memória, a criação e o direito à cultura devem ser plenamente reconhecidos.
A exposição se estende por toda a favela, desde a T.L. e os becos da Rua 1 até o Boiadeiro e a Estrada da Gávea, por onde todo cria que entra e sai em busca da sua dignidade passa diariamente.
queremos que a arte aconteça onde as histórias nascem.— fotogracria × mOst



pontos de vista
O projeto promoveu oficinas de fotografia e direção artística com crianças e adolescentes da T.L., estimulando o desenvolvimento da autonomia criativa e do olhar autoral. Ao longo do processo, os participantes não apenas aprenderam técnicas visuais, mas também foram incentivados a nomear as próprias obras e a refletir sobre as narrativas que desejavam construir.
A exposição reúne as imagens deles e as da Fotogracria, mostradas juntas, sem distinção: um retrato coletivo, assinado com identidade, consciência e pertencimento. Cada foto leva um título, muitas vezes uma expressão do morro, e uma legenda escrita na língua da comunidade.








ser cria
Os retratos das crianças da T.L. e da Rua 4: moleques que posam, brincam, sonham com skate e futebol, e dizem quem são.
gustavinho e o lazer de ser cria da rua
Gustavo passeando de moto pelas ladeiras da nova Rua 4, onde antigamente eram becos estreitos, onde ele se criou junto com a autora das fotos.
Só vivo pelo certo e me recuso a errar.

O JG é jogador. O Biel é jogador. Nós é cria da Rocinha. RLK nós vai tomar. Dois moleques que têm ódio.

Allan é um cria da Rocinha muito inteligente e perseverante; seu sonho é ser um grande skatista. Nesse dia ele estava tentando descer uma ladeira íngreme na Rua 4 e, depois de muitas tentativas, conseguiu.
breninho, terror da rua 4
Breno, filho de Vanessa Fernandes, é um cria da Rua 4 muito inteligente, alegre e conhecido. Durante uma pintura na Cidade Nova, no feriado de Natal de 2020, Breno brinca com uma lata de tinta spray na mão, atravessando a rua feliz, sem perceber que atrás dele passa uma viatura da UPP.


Eu gosto de comer acerola. Eu sou muito feliz assim, como as outras pessoas da favela da Rocinha.
Kauã Davi e seu fiel tomam um banho no chuveirão da Paula Brito em um dia calorento de verão.





lajes e becos
A vida no alto e nas passagens: o funk na laje, a pipa, a varanda, os gaviões do Laboriô, a vista.
quem tem joga
Raíssa, Debs, Maísa e Bruna dançam funk na laje de Eliane – mãe da fotógrafa – em um dia de verão, aproveitando as férias.
O talentoso Wallace Brito, conhecido como WB, integrante do “Oz Crias”, grupo de passinho (dança originária das favelas do Rio de Janeiro) da Rocinha, dança com força e potência em uma laje.
Em uma laje na Paula Brito, Abeguar, Daniel, Caio e Gustavo soltam pipa para se divertir.
mó paz na varanda
Dora, minha mãe, uma mulher incrível e linda. Faz tudo pra me fazer feliz. Clara é chata, mas amo ela.
Os irmãos Breno e Brian jogando The King of Fighters numa barbearia nos becos do Valão. Essa fotografia foi exibida, com outras da autora, no show da cantora Ludmilla no Rock in Rio – o mais comentado do mundo naquele dia.

A Rocinha é uma comunidade com diversas pessoas e diversos animais. As pessoas acham que a Rocinha é perigosa, mas a Rocinha é um lugar tranquilo.

as referências
Quem inspira o morro: um cantor, um barbeiro, um fotógrafo. Heróis da comunidade, fotografados por alguém da comunidade.
poze sorrindo no vidigal
O artista Marlon, conhecido como MC Poze, feliz nos bastidores durante a gravação de um clipe no alto do Vidigal. Poze foi preso injustamente no dia 29 de maio de 2025, numa operação equivocada da Polícia Civil do Rio de Janeiro, alegando apologia ao crime, mas o cantor apenas canta a realidade da favela e inspira muitos jovens que vivem nela a serem artistas.
maquininha, rei do corte
Peterson, conhecido como Maquininha, é um barbeiro e artista muito conhecido na Rocinha, mas também nacional e internacionalmente. Fotogracria documenta sua trajetória desde 2020 e, juntos, fizeram diversas campanhas com marcas, por exemplo para Puma e Rabanne, e saíram na FFW, na Cold Archives e na Outlander Magazine.
bruno, para sempre menino
Bruno sorrindo no Largo da Roupa Suja antes de ir à praia, que fica a poucos minutos da Rocinha. Bruno foi um dos primeiros fotógrafos com quem a autora teve contato e uma grande referência na sua arte – não só para ela, mas para muitos jovens, principalmente os atletas de bodyboarding da Rocinha, os primeiros a serem fotografados por Bruno quando ganhou uma câmera na praia, de Oswaldo L. Siqueira.
nevou, reflexo
O cabelo descolorido como cultura e como ritual: a pesquisa da Fotogracria, entre o salão e a cosmologia tupi.
ritual de beleza de guaraci e jaci
O ato de descolorir o cabelo vai além da estética: carrega também uma leitura ancestral. O “reflexo” destaca o efeito pontilhado das toucas de salão, formando bolinhas loiras na cabeça; para a artista, é a marca de quem foi tocado por Guaraci, o Sol. O “nevou” retrata o cabelo totalmente descolorido; para a artista, é a marca de quem foi tocado por Jaci, a Lua.
nevou na rua 4
O artista e cabeleireiro Piu (@mdo.sheik) lançando o nevou (cultura brasileira de descolorir os cabelos até ficarem totalmente brancos) e o reflexo (descolorir pequenos tufos de cabelo com a ajuda de uma touca) na frente do Salão dos Crias, onde ele e mais quatro amigos, entre eles FB, trabalham juntos todos os dias cortando o cabelo dos moradores da região.
O cachorro mais cria do morro, conhecido como “Negão”, com um visual diferenciado, de reflexo, descansando em algum beco da Rua 4.
desapagamento
Desapagar: a memória indígena da Rocinha, e os kurumins, as crianças, como futuro.
originais são originários – abeguar
Abeguar e muitos moradores da Rocinha têm ascendência originária. A Rocinha, antes de ser Rocinha – ou a fazenda Quebra Cangalha –, era território dos Tamoios, no século XVI. Sabendo disso, e através de arquivos familiares, a autora começou o projeto “desapagamento”, que registra a memória viva dos indígenas e de seus descendentes nas favelas. A primeira fotografia do projeto foi Abeguar na laje da autora, no Laboriô, parte mais alta da Rocinha, com o Morro Dois Irmãos e um pé de embaúba, espécie muito resistente e importante para o reflorestamento da Mata Atlântica.
Crianças brincando em uma laje na Dionéia, no inverno. Em tupi, “kurumin” ou “kurumí” significa “menino” ou “criança”. A autora acredita que o futuro começa com o respeito e o ensinamento dos mais antigos às crianças.
preto e branco
A favela em preto e branco: a quadra, os muros, a luz que cai sobre as casas.





a expo no morro
As fotos foram coladas em grande formato nos muros da Macega e da Rocinha: um muro laranja, uma fachada vermelha, uma porta de aço azul, a frente de um salão. Cada cartaz encontrou seu lugar perto de quem ele mostra. Aqui está a exposição, muro por muro.
fotogracria × mOst
A fotógrafa da Rua 4 e a associação conceberam e realizaram o projeto juntas: oficinas, direção artística, seleção, colagem. Para conhecer a trajetória e a pesquisa dela, veja a página inicial.
ficha do projeto
- datas
- 2025
- lugar
- a T.L. (Terra da Lama), na Macega — e depois toda a Rocinha, até o Boiadeiro e a Estrada da Gávea
- com
- Fotogracria · Favela Content
- autoria
- as crianças e adolescentes da T.L. e a Fotogracria
- linguagens
- fotografia, direção de arte, títulos e legendas
- exposição
- “os crias da T.L.”: dez muros, lambe-lambes em grande formato colados pela favela
Fotografias, títulos e legendas: as crianças e os adolescentes da T.L. (Macega, Rocinha) e a Fotogracria, mostrados juntos.
A equipe da mOst também fotografa com os jovens, nas oficinas, nos encontros e nas colagens: essas imagens fazem parte do processo de cocriação.
Oficinas, direção artística e exposição: Fotogracria × mOst, projeto Pontos de Vista, Macega, Rocinha, 2025.
Textos: Fotogracria e mOst.
a completar : nomes dos participantes da T.L.

















































